Eu adoro aquele momento em que você termina uma reportagem e pode pensar em outra coisa. É a hora de fechar o bloquinho com anotações, as 15 abas abertas no Firefox, os olhos por um momento, e dar uma respirada funda. Aí, vou espiar a caixa de e-mail do meu trabalho.
Geralmente, tem uns 50 e-mails novos sobre assuntos que não são nem úteis nem interessantes. Umas pilha enorme de lixo virtual. Eu recebo release sobre acessórios para ordenha de cabra, curso de mercado de capitais e as últimas novidades em ovos de páscoa, uma loucura. Minha editoria é bem ampla, então está valendo. Dá um trabalho enorme fazer o filtro nas centenas de mensagens que chegam todo dia, e olha que eu nem sou importante. É uma canseira enorme, mas é meu trabalho ler. Deveria ser o trabalho de quem manda esses e-mails certificar-se de que o assunto interessa ao destinatário, mas eu sei que os assessores estão muito ocupados fazendo relatórios, planejamentos estratégicos e análises de clipping. Muitas vezes é culpa do chefe. Mas enfim, independente de estarem fazendo direito, é o trabalho deles divulgar eventos chatos, produtos feios e pouco funcionais e pautas inventadas, que nem existem direito.
Aí, o Comunique-se inventou uma ferramenta para facilitar o trabalho dos assessores: um disparador automático de releases. Só que nem sempre funciona direito, e às vezes chega mais de três vezes a mesma mensagem. Multiplique isso pela dúzia de empresas que usa a ferramenta e calcule quanto tempo e paciência eu desperdiço com isso. Eu sei que eles tem que fazer o trabalho deles, mas porque o trabalho deles por princípio tem que dificultar o meu?
Aí que, com essa avalanche, minha caixa de e-mails do trabalho está uma chatice, que eu olho com muito desgosto e senso de dever. As pautas gostosas estão vindo do mundo, da rua, de blogs, dos chats com amigos antenados, de rabichos de apurações que cresceram. E todos estão fazendo seu trabalho.
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8.4.09
1.2.09
Os primitivos
Esse domingo, a Record exibiu uma reportagem sobre como vivem as tribos africanas. Bola fora total, quase um crime sociológico. O repórter se referiu à tribo (não sei dizer qual era, porque peguei apenas um trechinho da matéria) como "primitivos", "bando" e descreveu a tribo de formas muito consonantes com os primeiros relatos de europeus, ao encontrarem os primeiros habitantes das Américas. Pouquíssima informação concreta sobre o modo de vida e situação da tribo; por outro lado, pude traçar claramente o tamanho da estreiteza da cultura do repórter, que chutada expressões como "quase nômades" e "semi-nômades" sem explicar o que pretendia dizer com aquilo.
Nem uma palavra sobre a riqueza cultural da tribo, alimentação, religião, língua falada, arte, interação com o ambiente, história do povo. Nem um relato pessoal sobre alguma das pessoas que fazia parte do grupo.
Fiquei chocada com a falta de respeito, que claramente posicionou a cultura ocidental como superior e "normal", e a deles, como exótica e inferior. O despreparo era tão grande que os comentários eram sobre casas no alto das árvores, a nudez; a cena apelativa era ele tirando fotos das pessoas e mostrando, porque "muitos ali nunca viram sua própria imagem". Só faltou oferecer contas e espelhinhos.
Ainda estamos em 1500?
Nem uma palavra sobre a riqueza cultural da tribo, alimentação, religião, língua falada, arte, interação com o ambiente, história do povo. Nem um relato pessoal sobre alguma das pessoas que fazia parte do grupo.
Fiquei chocada com a falta de respeito, que claramente posicionou a cultura ocidental como superior e "normal", e a deles, como exótica e inferior. O despreparo era tão grande que os comentários eram sobre casas no alto das árvores, a nudez; a cena apelativa era ele tirando fotos das pessoas e mostrando, porque "muitos ali nunca viram sua própria imagem". Só faltou oferecer contas e espelhinhos.
Ainda estamos em 1500?
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11.8.08
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