Série nova! Complementar à cadimia, though. (Ou será que cadimia é complementar ao Audax?)
Estou em casa numa tarde de domingo com uma tacinha de vinho branco, lendo sobre pedal de longa distância. Hoje de manhã, eu pedalei exatos 101 km até Sorocaba, achei a padaria Real, comi uma coxinha, tomei uma cerveja Weizen, fui até a rodoviária e peguei um ônibus para casa.
Foi meu primeiro solo. Foi maravilhoso, em cada quilômetro.
A decisão tinha sido tomada ao longo da semana: eu ia pedalar sozinha no domingo. Não sabia para onde ir; Sorocaba pareceu fácil e meio sem erro. Sem subidas mortais e, se tudo desse errado e fugisse de controle, ainda daria para pegar carona nos ônibus da Cometa, que passam o tempo todo pela estrada.
No sábado, liguei para um amigo que podia me explicar qual a melhor forma de pegar a Castelo. Em casa, dei uma espiada no Google Maps e fiquei feliz ao ver que dominava até que bem o caminho. Cheguei em casa cedo, arrumei minha bolsa com câmara, comida e ferramentas, e fui mexer no iPod. Recheei com músicas que me fariam feliz e me dariam confiança, e deixei o bichinho carregando. Não parecia, mas no fundo, estava tão ansiosa que bateu até uma febrinha, o lábio rachou, arranhou a garganta.
No domingo, acordei com o despertador, mas me permiti dormir o suficiente, até para não judiar do corpo (por causa da garganta inflamada). Sem pressa, tomei café da manhã, antiinflamatório, e saí. A bênça de ir sozinha é que tudo é mais rápido. Mesmo acordando ruim, esticando a soneca e fazendo as coisas com calma, saí 8h30.
Tudo correu melhor que o esperado. Nenhum erro no caminho, o céu estava de um azul profundo, o clima extremamente agradável - fresco, mas com sol. Todas as saídas e acessos estavam magicamente tranquilos. E até os caminhoneiros estavam gentis! A maioria dos que buzinaram o fizeram muito suavemente, para avisar que estavam chegando, de modo que eu não me assustasse com o deslocamento de ar.
Fiz uma parada aos 60 km, para comprar um isotônico. O gerente do restaurante do posto se admirou com meu passeio sozinha, disse que eu nem cara de cansada tinha. Não tinha mesmo. Até ali, umas 10h30, era só paraíso: tempo fresco, corpo feliz, rodando. Estrada boa, vazia, motoristas gentis, nenhum imprevisto mecânico ou pneu furado.
Na reta final, um pelotão me ultrapassou rápido, a uns 40 m/h. Da euforia ao reconhecimento do estado de café-com-leite em 10 segundos. Mas dois ciclistas que tinham desgarrado do pelotão ficaram conversando comigo uns 2 km, quase já na estrada secundária para Sorocaba city. Gentis e um pouco surpresos com a louca ali sozinha na estrada. O treino deles era, obviamente, mais rápido que o meu, e com cerca de 140 km de duração. Não quero nem especular sobre a porcentagem de gordura corporal dessas pessoas.
Não é curioso ver que seu o padrão de comparação para desempenho parou de ser seus amigues e virou o pelotão que te ultrapassa na estrada?
Peguei a secundária para Sorocaba e uns quilômetros adiante, ei-la, a cidade! Foi fácil me informar sobre como chegar na Real (e o frentista que me explicou até tirou com a minha cara. "Se veio até aqui pedalando, vou de explicar como chega na matriz, que é 2 km mais longe"). No caminho, na ciclovia à beira do rio Sorocaba, pedalei no meio de uma nuvem de andorinhas.
Só sei que o pedal sozinha não foi, em nenhum momento, solitário. A minha própria companhia, as pessoas pelo mundo, urubus muito longe, aves e andorinhas perto, as grandes cantoras que eu escolhi para serem minhas patronas: Patti Smith, Rita Lee, Fernanda Takai. Foi um dia de uma felicidade muito grande.
Ah, e a coxinha da Real empata com a do Veloso e perde para a do Frangó, é preciso dizer.
20.11.11
Assinar:
Postar comentários (Atom)
0 comentários:
Postar um comentário